2ª Pregação do Advento: Raniero Cantalamessa, Ofmcap

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Segunda Pregação do Advento de 2018 ao Papa Francisco e à Cúria Romana
Deus existe! – 14.12.2018

Segunda Pregação Advento 2018 | Tradução: Thácio Siqueira | Texto Integral: Vaticannews

Uma experiência do Deus vivo

Quando se trata do Deus vivo, uma experiência vale mais do que muitos argumentos e eu gostaria de começar esta segunda meditação precisamente com uma experiência. Algum tempo atrás, recebi a carta de uma pessoa que eu acompanhava espiritualmente, uma mulher casada e viúva, já falecida. A autenticidade das suas experiências é confirmada pelo fato de que as levou consigo para o túmulo, sem nunca falar com ninguém, exceto com seu pai espiritual. Mas todas as graças pertencem à Igreja e, portanto, quero compartilha-la com vocês, agora que ela está com Deus. Ela me fez recordar a experiência de Moisés frente à sarça ardente. Dizia:

Querido padre, quero compartilhar com você uma lembrança da minha infância que nunca contei a ninguém. Eu ainda não tinha quatro anos e estava no campo com minha avó. Certa manhã, enquanto esperava em meu quarto para me vestirem, olhava para uma grande tília que desdobrava os galhos em frente à janela. O sol nascente atingia-a de frente. Estava encantada com sua beleza, quando de repente minha atenção foi atraída por um esplendor incomum, um branco extraordinário. Cada folha, cada ramo começou a vibrar como chamas de mil velas. Fiquei mais encantada do que quando vi cair a primeira neve da minha vida. E a minha surpresa aumentou quando – não sei se com os olhos do corpo ou não – no centro de todo aquele vislumbre vi como um olhar e um sorriso de uma beleza e de uma benevolência indescritíveis. Meu coração estava batendo descontroladamente; senti aquele poder de amor me penetrando e tive a sensação de ser amada até mesmo no mais íntimo do meu ser. Durou um minuto, um minuto e meio, não sei, para mim era a eternidade. Fui trazida de volta à realidade por um arrepio de frio que passou pelo meu corpo e com grande tristeza percebi que o olhar e o sorriso tinham desaparecido e que pouco a pouco o esplendor da árvore se extinguia. As folhas retomaram a sua aparência comum e a tília, ainda que investida pela luz radiante de um sol de verão, comparada ao seu esplendor anterior, para minha grande decepção me parecia escura como sob um céu chuvoso. Nunca falei para ninguém sobre esse fato, mas pouco tempo depois, ouvi a cozinheira e outra mulher conversarem sobre Deus. Reagi e perguntei: “Deus? Quem é?”, intuindo algo misterioso. “Pobrezinha”, disse a cozinheira para a outra mulher, “a vovó é uma pagã e não lhe ensina essas coisas! Deus – disse diante de mim – é aquele que fez o céu e a terra, os homens e os animais. Ele é onipotente e mora no céu”. Fiquei em silêncio, mas disse a mim mesma: “É ele que eu vi!”. E ainda assim eu estava muito confusa. Aos meus olhos, minha avó estava bem acima dessas mulheres de serviço, contudo a cozinheira havia dito que ela era pagã porque não conhecia a Deus e eu entendi que era um termo depreciativo. Quem estava certo?

Certa manhã, esperava de novo que viessem me vestir. Estava impaciente e lamentava o fato de que minhas roupas de menina se abotoavam por trás. Colocava a culpa de tudo na “maldade dos grandes para com os pequenos em seu poder”. No final eu não esperei mais e disse: “Deus, se você existe e é verdadeiramente onipotente, abotoe-me o vestido nas costas para que eu possa ir até o jardim”. Eu não tinha terminado de falar estas palavras e meu vestido estava abotoado. Fiquei de queixo caído, aterrorizada pelo efeito das minhas palavras. Minhas pernas tremiam, sentei em frente ao espelho do guarda-roupa para ver se era verdade e para recuperar o fôlego. Eu ainda não sabia o que significasse a frase “tentar a Deus”, mas compreendia que seria reduzida a pó se me opusesse à sua vontade.

Eu estava acostumada a viver sozinha, mas agora eu tinha Deus olhando para mim. Podia sentir seu olhar invisível repousando em mim, com uma ternura paternal na qual eu não podia estar enganada. Era um pai que podia fazer tudo, tinha tudo para mim e havia criado todas as belezas da natureza que me rodeavam. Meu coração se enchia de alegria”.

Deus é amor e por isso é Trindade

Continuemos agora a nossa reflexão sobre o Deus vivo. A quem recorremos, nós cristãos, quando pronunciamos a palavra “Deus”, sem nenhuma outra especificação? A quem se refere aquele “tu”, quando, com as palavras do salmo, dizemos: “Ó Deus, tu és o meu Deus” (Sl 63, 2)? Quem responde a isso, por assim dizer, do outro lado da linha? Aquele “tu” não é simplesmente Deus-Pai, a primeira pessoa divina, como se existisse ou fosse pensável, apenas um instante, sem as outras duas. Não é nem mesmo a essência divina indeterminada, como se houvesse uma essência divina que só mais tarde se especificaria em Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

O único Deus, aquele que na Bíblia diz: “Eu Sou!”, é o Pai que gera o Filho e que com ele exala o Espírito, comunicando-lhes toda a sua divindade. É o Deus comunhão de amor, no qual unidade e trindade procedem da mesma raiz e do mesmo ato e formam uma Triunidade, na qual nenhuma das duas coisas – unidade e pluralidade – precede a outra, ou existe sem a outra, nenhum dos dois níveis é superior ao outro ou mais “profundo” que o outro.

Aquele “tu” ao qual nos dirigimos na oração, conforme os casos e a graça de cada um, pode ser uma das três pessoas divinas em particular: o Pai, o Filho Jesus Cristo, ou o Espírito Santo, sem se perder a totalidade. Para a comunhão trinitária, de fato, em cada pessoa divina estão presentes as outras duas. A Trindade é como um daqueles triângulos musicais que de qualquer lado que se toque vibra tudo e dá o mesmo som.

Em conclusão, o Deus vivo dos cristãos só pode ser a Trindade viva. A doutrina da Trindade está contida, em síntese, na revelação de Deus como amor. Dizer: “Deus é amor” (1 Jo 4, 8) é dizer: Deus é trindade. Todo amor implica um amante, um amado e um amor que os une. Todo amor é amor de alguém ou de algo; não se dá um amor “vazio”, sem objeto. Mas, quem ama a Deus, para ser chamado de amor? O homem? Mas, então, é amor só desde algumas centenas de milhões de anos. O universo? Mas, então, é amor só desde algumas dezenas de bilhões de anos. E antes, quem amava a Deus para ser amor?

Os pensadores gregos e, em geral, as filosofias religiosas de todos os tempos, concebendo Deus acima de tudo como “pensamento”, poderiam responder: Deus pensava a si mesmo; era “puro pensamento”, “pensamento de pensamento”. Mas isso não é mais possível, a partir de quando se diz que Deus é principalmente amor, porque o “puro amor de si mesmo” seria puro egoísmo, que não é a exaltação máxima do amor, mas a sua total negação. E aqui está a resposta da revelação, explicitada pela Igreja. Deus é amor desde sempre, ab aeterno, porque antes mesmo de existir um objeto fora de si para amar, tinha em si mesmo o Verbo, o Filho a quem amava com amor infinito, ou seja, “no Espírito Santo”.

Isso não explica “como” a unidade possa ser simultaneamente trindade; isso é um mistério incognoscível para nós, porque ocorre somente em Deus. Nos ajuda, no entanto, a entender “por que”, em Deus, a unidade deve ser também pluralidade: porque “Deus é amor”! Um Deus que fosse puro conhecimento ou pura lei, ou puro poder certamente não precisaria ser trino. Isso complicaria bastante as coisas e, de fato, nenhum “triunvirato” jamais durou muito tempo na história! Não é assim com um Deus que é acima de tudo amor, porque “em menos de dois, não pode haver amor”. “É necessário – escreveu Henri de Lubac – que o mundo saiba: a revelação de Deus como amor abala tudo o que, antes, se havia concebido da divindade[1]”. Nós cristãos acreditamos “em um só Deus”, não em um Deus solitário!

Contemplar a Trindade para superar a odiosa divisão do mundo²

Nenhum tratado sobre a Trindade é capaz de colocar-nos em contato vivo com ela como a contemplação do ícone da Trindade de Rublev, do qual vemos uma reprodução em mosaico diante de nós, no topo da parede oposta. Pintado em 1425 para a Igreja de São Sérgio, o ícone foi declarado, pelo “concílio dos cem capítulos” de 551, modelo de todas as representações da Trindade.

Uma coisa deve ser notada imediatamente sobre esta imagem. Ela não quer representar diretamente a Trindade, que, por definição, é invisível e inefável. Isso teria sido contrário a todos os cânones da iconografia bizantina. Diretamente, ela representa a cena dos três anjos que apareceram a Abraão no carvalho de Mamre (Gn 18,1-15); isso é claramente demonstrado pelo fato de que em outras pinturas do mesmo sujeito, antes e depois de Rublev, no ícone também apareciam Abraão, Sara, o bezerro e, ao fundo, o carvalho. Essa cena, no entanto, à luz da tradição patrística, é lida como uma prefiguração da Trindade. O ícone é uma das formas que assume a leitura espiritual da Bíblia, que é a interpretação de um fato do Antigo Testamento à luz do Novo.

O dogma da unidade e trindade de Deus é expresso no ícone de Rublev pelo fato de que as figuras presentes são três e bem distintas, mas muito semelhantes entre si. Elas estão idealmente contidas dentro de um círculo que destaca a sua unidade, enquanto o movimento diferente, especialmente da cabeça, proclama a sua distinção. Todos os três usam, na original, um vestido azul, sinal da natureza divina que têm em comum; mas acima, ou abaixo, cada um tem uma cor que o distingue do outro. O Pai (geralmente identificado com o anjo à esquerda para quem as outras duas pessoas inclinam a cabeça), tem um manto de cor indefinível, feito quase de pura luz, sinal da sua invisibilidade e inacessibilidade; o Filho, no centro, veste uma túnica escura, sinal da humanidade que revestiu; o Espírito Santo, o anjo à direita, um manto verde, sinal da vida, sendo ele aquele “que dá a vida”.

Acima de tudo, uma coisa impressiona ao contemplar o ícone de Rublev: a paz profunda e a unidade que emana do todo. Do ícone se desprende um grito silencioso: “Sejam um, assim como nós somos um”. São Sérgio de Radonez, para cujo mosteiro o ícone foi pintado, havia se distinguido na história da Rússia por ter trazido a unidade entre os líderes em conflito e de, assim, ter tornado possível a libertação da Rússia dos tártaros. O seu lema era: “Contemplando a Santíssima Trindade, superar a odiosa discórdia deste mundo”. Rublev quis reunir a herança espiritual do grande santo que tinha feito da Trindade a fonte inspiradora da sua vida e do seu trabalho.

Desta visão da Trindade, portanto, recolhemos o apelo à unidade

Todos nós queremos a unidade. Depois da palavra felicidade, não há nenhuma outra que responda a uma necessidade igualmente urgente do coração humano como a palavra unidade. Somos “seres finitos, capazes de infinito” e isso significa que somos criaturas limitadas que aspiramos superar o nosso limite, para ser “de alguma forma tudo”, quodammodo omnia, dizemos em filosofia. Não nos limitamos a ser só o que somos. Quem não se lembra, nos anos da juventude, de alguns momentos de comovente necessidade de unidade, quando se desejaria que todo o universo estivesse contido em um só ponto e ele estar, com todos os outros, naquele único ponto, de tal forma que o senso de separação e de solidão no mundo se fazia sentir com sofrimento? São Tomás de Aquino explica tudo isso dizendo: “Porque a unidade (unum) é um princípio do ser como a bondade (bonum), segue-se que todos naturalmente desejam a unidade, como desejam o bem. Por essa razão, como o amor ou o desejo pelo bem causam sofrimento, da mesma forma o amor ou o desejo pela unidade”[3].

Todos, portanto, queremos a unidade, todos nós a desejamos do fundo do coração. Por que, então, é tão difícil fazer unidade, se todos nós a desejamos tão ardentemente? É que nós queremos, sim, que se faça a unidade, mas… em torno do nosso ponto de vista. Parece tão óbvio, tão razoável, que ficamos surpresos de como os demais não percebam e insistam, por vezes, em seus pontos de vista. Projetamos facilmente o caminho para que os outros cheguem até onde chegamos. O problema é que o outro na minha frente está fazendo exatamente a mesma coisa comigo. Desta forma, nenhuma unidade será alcançada. Percorre-se, assim, o caminho oposto.

A Trindade nos mostra o verdadeiro caminho para a unidade. Partindo das pessoas divinas, e não do conceito de natureza, os orientais se viram obrigados a assegurar de outra forma a unidade divina. Fizeram-no elaborando a doutrina da pericorese. Aplicada à Trindade, pericorese (literalmente, mútua compenetração) expressa a união das três pessoas na única essência[4]. Graças a ela as três pessoas estão unidas, sem se confundirem; cada pessoa se “identifica” na outra, se dá à outra e fazer ser a outra. O conceito se fundamenta nas palavras de Cristo: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim”.

Jesus estendeu este princípio ao relacionamento que há entre ele e nós: “Eu estou no Pai, e vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20); “Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade” (Jo 17, 23). O caminho para a verdadeira unidade reside em imitar entre nós, na Igreja, a pericorese divina. São Paulo indica o seu fundamento quando diz que “somos membros uns dos outros” (Rm 12, 5). Em Deus, a pericorese baseia-se na unidade da natureza, em nós, no fato de que somos “um só corpo e um só espírito”.

O apóstolo nos ajuda a entender o que significa, na prática, viver entre nós a pericorese, a mútua compenetração: “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; e se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele” (1 Cor 12, 26); “Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6, 2). Os “fardos” dos outros são as doenças, os limites, as cruzes, também os defeitos e os pecados. Viver a pericoresi significa “identificar-se” com o outro, tentando colocar-se, como se diz, em seus sapatos, tentando entender, antes de julgar.

As três pessoas divinas estão sempre comprometidas em glorificar umas às outras. O Pai glorifica o Filho; o Filho glorifica o Pai (Jo 17, 4); o Paráclito glorificará o Filho (Jo 16,14). Cada pessoa se dá a conhecer tornando a outra conhecida. O Filho ensina a gritar Abba!; o Espírito Santo ensina a clamar: “Jesus é o Senhor!”, e “Vem, Senhor”, Maranatha. Eles não ensinam a pronunciar o próprio nome, mas o das outras pessoas. Há só um “lugar” no mundo onde a regra “ama o próximo como a si mesmo” é colocada em prática, em um sentido absoluto, e é a Trindade! Cada pessoa divina ama a outra exatamente como a si mesma.

Quão diferente é a atmosfera que se respira quando em um corpo social há o esforço de viver com estes ideais sublimes diante dos olhos! Pensemos em uma família na qual o marido defenda e exalte a sua esposa diante de filhos e estranhos, e o mesmo faça a esposa com relação ao marido; pensemos em uma comunidade na qual há o esforço de se pôr em prática a recomendação de São Tiago: “Não falem mal uns dos outros, irmãos” (Tg 4, 11), ou aquela de São Paulo: “Rivalizai na mútua estima” (Rm 12, 10). Nesse ritmo, se chegaria até mesmo a alegrar-se pela nomeação de uma outra pessoa que estima a um certo posto de honra (por exemplo, o cardinalato), como se ele próprio tivesse sido nomeado.

Mas deixemos os santos falarem tais coisas, dado que são os únicos que têm o direito de fazer isso, porque o colocam em prática. Em uma de suas admoestações, São Francisco de Assis diz: “Bem-aventurado aquele servo que não se orgulha pelo bem que o Senhor diz e faz por meio dele, mas pelo bem que diz e faz por meio de outro”[5]. Santo Agostinho dizia ao povo:

“Se amas a unidade, tudo o que é possuído por alguém nela, tu também o possuis! Abandones a inveja e teu será tudo o que é meu, e se eu abandono a inveja, será meu tudo o que possuis. A inveja separa, a caridade une… Só a mão age no corpo; ela, no entanto, não age só para si própria, mas também para o olho. Se um objeto se aproxima, não da mão, mas do rosto, será que a mão diz: ‘Não me moverei porque o golpe não se dirige a mim?'”[6].

Queria dizer: se te esforças para colocar o bem da comunidade por acima da tua afirmação pessoal, todo carisma e toda honra presente nela será tua, como em uma família unida o sucesso de um membro faz todos felizes. É por isso que a caridade é “o melhor caminho de todos” (1 Cor 12, 31): ela multiplica os carismas, faz do carisma de um o carisma de todos. Eu percebo que estas coisas são muito fáceis de serem ditas, mas difíceis de se colocar em prática; é bom, no entanto, saber que, com a graça de Deus, elas são possíveis e algumas almas as realizaram e as realizam também por nós na Igreja.

Contemplar a Trindade realmente ajuda a vencer “a odiosa discórdia do mundo”. O primeiro milagre que o Espírito obrou em Pentecostes foi fazer com que os discípulos “concordassem” (At 1, 14), “um só coração e uma só alma” (At 4, 32). Ele está sempre pronto para repetir esse milagre, para sempre transformar a dis-córdia em con-córdia. Pode-se estar dividido na mente, no que cada um pensa sobre questões doutrinais ou pastorais ainda legitimamente debatidas na Igreja, mas nunca divididos no coração: In dubiis libertas, in omnibus vero caritas. Isso significa, precisamente, imitar a unidade da Trindade; ela é, de fato, “unidade na diversidade”.

Entrar na Trindade

Há algo ainda mais feliz que podemos fazer com relação à Trindade do que contemplá-la e imitá-la e é entrar nela! Nós não podemos abraçar o oceano, mas podemos entrar nele; não podemos abraçar o mistério da Trindade com a nossa mente, mas podemos entrar nele! Cristo nos deixou um meio concreto para fazê-lo, a Eucaristia. No ícone de Rublev, os três anjos estão dispostos em círculo ao redor de uma mesa; sobre aquela mesa há uma taça e dentro da taça dá para ver um cordeiro. Não poderíamos dizer de uma maneira mais simples e mais eficaz que a Trindade tem hora marcada conosco, todos os dias, na Eucaristia. O banquete de Abraão no carvalho de Mamre é figura deste banquete. A visita dos três a Abraão é renovada por nós toda vez que nos aproximamos da comunhão.

Também aqui, ou seja, sobre a Eucaristia, é iluminador a doutrina da pericorese trinitária. Ela nos diz que onde há uma pessoa da Trindade, lá estão também as outras duas, inseparavelmente unidas. No momento da comunhão se realiza em um sentido estrito a palavra de Cristo: “Eu neles e tu em mim”. “Quem me vê, vê o Pai”, quem me recebe, recebe o Pai. Nunca conseguiremos apreciar plenamente a graça que nos é oferecida. Comensais da Trindade!

São Cirilo Alexandrino formulou essa verdade com o usual rigor teológico que liga indissoluvelmente Trindade e Eucaristia. Diz: “Somos consumidos na união com Deus Pai por meio de Cristo. Recebendo, de fato, em nós, corporalmente e espiritualmente o que o Filho é por natureza nos tornamos partícipes e consortes de toda a natureza suprema”[7].

A mesma pessoa cujo depoimento eu trouxe de volta ao começo, em outra ocasião, me confidenciou sua experiência da Trindade. Permito-me compartilhar com vocês, porque também esta, como todas as graças, pertencem à Igreja. Dizia:

“Na outra noite, o Espírito me introduziu no mistério do amor trinitário. O fascinante intercâmbio do dar e receber também ocorreu através de mim: de Cristo, a quem eu estava unida, para o Pai e do Pai para o Filho. Mas como expressar o inexprimível? Eu não via nada, mas era muito mais do que ver, e as minhas palavras são impotentes para traduzir este intercâmbio no júbilo, que se respondia, se atirava, recebia e doava. E daquele intercâmbio fluía uma intensa vida de Um para o Outro, como um leite morno que flui do seio da mãe para a boca da criança ligada a este bem-estar. E eu era aquela criança, era toda a criação que participa da vida, do reino, da glória, tendo sido regenerada por Cristo. Ó Santa e viva Trindade! Fiquei como fora de si por dois ou três dias, e ainda hoje esta experiência ficou fortemente impressa em mim”.

A Trindade não é apenas um mistério e um artigo da nossa fé, é uma realidade viva e palpitante. Como eu disse no início, o Deus vivo da Bíblia que procuramos não é outro senão a Trindade viva.

 

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¹ H. de Lubac, Histoire et Esprit, Aubier, Parigi 1950, cap.5.

² Reproduzo aqui, em parte, o que escrevi em meu livro Contemplando la Trinità, Ancora, Milano 2002, pp. 7 ss.

³ S. Tomás, S. Th. I-IIae , q. 26,a.3.

4 Cf. Ps. Cirillo Alessandrino, De Trinitate, 23; PG 77 1164B; S. Giovanni Damasceno, De fide orthodoxa, 3,7.

5 S. Francisco, Ammonizione XVII (FF, 166).

6 S. Agostinho, Tratados sobre João, 32,8

7 S. Cirilo Alexandrino., Comentário a João, XI, 12 (PG 74, 564)

Jefferson Souza

Jefferson Souza