Documento sobre o diálogo católico-anglicano sugere que as igrejas podem aprender uma com a outra

O documento ainda acrescenta que a Igreja Católica pode “aprender com a inclusão dos leigos nas estruturas de tomada de decisão em todos os níveis da vida anglicana”.

SÃO LEOPOLDO (RS) | NCR – Tradução IHU – Atualizado 09.07.2018 – 12h34

A Comissão oficial para o diálogo entre as igrejas Católica e Anglicana publicou seu primeiro documento em 13 anos. O documento concentra-se em como as instituições globais podem aprender uma com a outra a equilibrar o exercício de autoridade eclesiástica nos níveis local, regional e mundial.

Entre as considerações do relatório de 68 páginas, publicado no dia 2 de julho, há questões sobre como a Igreja Católica pode aprender com a experiência anglicana para capacitar os líderes das igrejas locais de modo a agir de forma mais independente de Roma em algumas situações e dar mais autoridade a órgãos consultivos como o Sínodo dos Bispos.

“A Igreja Católica Romana pode aprender com a cultura de debate franco e aberto que existe em todos os níveis na Comunhão Anglicana”, afirmam os membros da Comissão Internacional Anglicana-Católica Romana em uma das conclusões do documento, “Walking Together on the Way: Learning to Be the Church — Local, Regional, Universal” (Caminhando Juntos no Caminho: Aprender a ser Igreja – Local, Regional, Universal).

“A prática anglicana de conceder um papel deliberativo aos sínodos e de dar autoridade a instrumentos regionais de comunhão indica que o Sínodo dos Bispos poderia ter um papel deliberativo e também sugere a necessidade de a Igreja Católica Romana articular a autoridade das conferências episcopais de forma mais clara”, acrescenta o documento.

O documento ainda acrescenta que a Igreja Católica pode “aprender com a inclusão dos leigos nas estruturas de tomada de decisão em todos os níveis da vida anglicana”.

Criada após a histórica reunião de 1966 entre o Papa Paulo VI e o arcebispo anglicano de Canterbury Michael Ramsey, a comissão começou seus trabalhos em 1970 e divulgou o primeiro documento um ano depois, sobre o entendimento das duas igrejas sobre a doutrina eucarística.

Desde então, uma gama de questões foi abordada, incluindo como as igrejas consideram questões de ordenação, autoridade e salvação. Seu último documento foi “Maria: Graça e Esperança em Cristo”, de 2005, com um hiato desde então até 2010, depois que o Papa João Paulo II se posicionou contra a nomeação do bispo episcopal de New Hampshire, Gene Robinson, que é abertamente gay e depois também revelou estar em um relacionamento.

O novo documento, fruto de um acordo em uma reunião em Erfurt, na Alemanha, em 2017, publicado on-line de forma discreta na manhã do dia 2 de julho, faz parte do que a comissão considera a terceira fase do trabalho.

Os co-presidentes do grupo — Bernard Longley, arcebispo de Birmingham, Inglaterra, e David Moxon, arcebispo anglicano da Nova Zelândia, que acabou de encerrar seu mandato como representante do arcebispo de Canterbury junto à Santa Sé — dizem, no prefácio, que esta fase deve recuperar dois temas de longa data em relação ao diálogo: autoridade e eclesiologia da comunhão.

Longley e Moxon explicam que o documento analisa as estruturas que cada Igreja usa para manter sua comunhão global para ver “o quanto esses instrumentos… nos servem e mantém a unidade na diversidade que a comunhão implica”.

“Esta tarefa requer uma avaliação franca: a coragem de olhar para nós mesmos de forma honesta e de aprender com o outro”, afirmam.

Comparando estruturas de decisão e comunhão
O documento, que segundo a comissão deve iniciar uma discussão e não é uma “declaração autoritária” de nenhuma das igrejas, divide-se em seis capítulos. Três deles avaliam como cada igreja exerce autoridade nos níveis local, regional e mundial.

Um foco importante nessa avaliação é como as duas igrejas equilibram as decisões entre os níveis local e universal de diferentes maneiras.

Em um exemplo, o documento menciona que, na Comunhão Anglicana, as províncias locais podem decidir sobre a partilha da Eucaristia com outras igrejas da província, ao contrário da Igreja Católica, em que tais decisões seriam reservadas a Roma em nome de toda a Igreja.

“Essa diferença entre as duas tradições aponta para o núcleo de diferentes formas de compreensão e de estrutura entre a Igreja Católica e as igrejas da Comunhão Anglicana”, afirma o relatório.

“Em partes, isso tem que ver com diferentes entendimentos sobre como a igreja vai adiante na unidade, na missão e na verdade”, acrescenta. “A questão em causa é o equilíbrio entre a capacidade de responder às exigências dos contextos específicos e a necessidade de se mover em conjunto”.

O documento também avalia as tensões na prática da comunhão dentro de cada igreja e, por vezes, apresenta as perspectivas anglicana e católica em colunas separadas, para deixar claro quando cada igreja fala sobre sua própria experiência.

As tensões identificadas pelos membros católicos da comissão são abrangentes. Uma “área de dificuldade” mencionada é o conceito de que os bispos católicos mundiais podem agir de forma autoritária em conjunto mesmo quando não estão reunidos em concílio.

“Na carta apostólica do Papa João Paulo II Ordinatio Sacerdotalis e em sua encíclica Evangelium Vitae, faz-se um apelo sobre essa doutrina vinculativa”, declaram os membros católicos da comissão, referindo-se à reafirmação de 1994 da proibição da ordenação de sacerdotisas na Igreja Católica e o documento de 1995 que trata de questões como o aborto e a eutanásia.

“No entanto, não houve nenhum ato que marcasse o consentimento explícito dos bispos a essa suposta doutrina”, acrescentam. “Por isso, nem os bispos nem os leigos podem reconhecer quais doutrinas requerem aprovação até que sejam proclamadas como vinculativas pelo Papa… ou por um concílio ecumênico”.

Os membros católicos da comissão também discutem os poderes que o papa tem exercido nas últimas décadas, dizendo que o uso de uma autoridade como essa “pode… parecer estar distante demais da realidade pastoral das igrejas locais”.

“O Papa Francisco tem observado uma tendência dos bispos de manter a deferência a Roma muito prontamente, ao invés de exercer a própria autoridade”, afirmam. “A autoridade que toma decisões exercida por Roma (particularmente em relação a nomeações episcopais) e seu poder de censura, pode deixar tanto os bispos como as conferências episcopais reticentes e constrangidos ao exercer a autoridade que lhes cabe”.

Depois, os membros católicos consideram o quanto o “instinto de unidade e participação no todo maior” da Igreja às vezes pode levar à suposição de que “a igreja toda precisa se movimentar como uma em relação a tudo e, consequentemente, até mesmo diferenças culturais e regionais legítimas são suprimidas”.

“Embora haja tensões conhecidas na Comunhão Anglicana, a Igreja Católica pode aprender com a prática da anglicana de diversidade provincial e, portanto, o reconhecimento de que em algumas questões diferentes partes da comunhão podem ter discernimentos diferentes, com base na adequação cultural e contextual”.

Avaliando a unidade na Igreja Católica
Os membros anglicanos elogiam o que chamam “compromisso de unidade” da Igreja Católica e sugerem que sua comunhão se baseie nas práticas católicas de ter um calendário comum dos santos, desenvolver um catecismo da doutrina no mundo todo e ter um único código de direito canônico.

“Apesar da hesitação da Igreja Anglicana em modificar a autonomia provincial, existe uma vontade de ter uma identidade mundial e um compromisso que exige uma expressão mais profunda na vida da comunhão”, afirmam.

Os membros anglicanos também elogiam o processo de 2014 e 2015 do Sínodo dos Bispos Católicos a respeito das questões da vida familiar, dizendo que as reuniões de prelados católicos no mundo todo que resultaram na exortação apostólica de 2016, Amoris Laetitia, foram “observadas com cuidado” pelos anglicanos.

Eles afirmam que o fato de Francisco “incentivar a subsidiariedade na determinação de questões pastorais de divisão podem ser… algo que podem aprender”.

Os membros católicos então reconhecem que modelos anglicanos “podem servir como base para que o sínodo deixe de ser uma entidade apenas consultiva e seja um órgão deliberativo, o que está previsto no Código de Direito Canônico”.

Na conclusão, a comissão volta a afirmar que a Comunhão Anglicana e a Igreja Católica Romana podem aprender com a experiência uma da outra.

“Acreditamos que os anglicanos podem aprender com as estruturas e os procedimentos da Igreja Católica que se desenvolveram a serviço da unidade em níveis trans-local e universal”, afirmam.

“Também acreditamos que os católicos podem aprender com as estruturas e procedimentos anglicanos que se desenvolveram para assegurar a consulta e deliberação em níveis local e trans-local”, acrescentam.

“Em ambos os casos, é preciso que haja uma compreensão mais rica do papel dos leigos como os que, através do batismo, participam plenamente do papel triplo de Cristo como profeta, sacerdote e rei”, afirmam.

Além dos co-presidentes, a Comissão Internacional Anglicana-Católica Romana tem 16 membros, oito de cada tradição.

Entre os membros católicos, estão: o bispo auxiliar de Boston, Arthur Kennedy, o bispo auxiliar de São Francisco, Robert Christian, e a Irmã da Sociedade da Criança Sagrada Jesus Teresa Okure, teóloga do Instituto Católico da África Ocidental.

Entre os membros anglicanos, estão: a bispa de Huron, no Canadá, Linda Nicholls, o bispo de Mthatha, na África do Sul, Nkosinathi Ndwandwe, e o Rev. Michael Nai-Chiu Poon, teólogo da Faculdade de Teologia da Trinity College em Cingapura.

O grupo afirma que suas próximas discussões serão sobre como as duas igrejas discernem a doutrina ética e correta.

Top