Transfiguração: acontecimento da oração

“Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma montanha. E transfigurou-se diante deles” (Mc 9,2)

Quando lemos estas palavras de Marcos também ficamos impressionados com o acontecimento. Diante dos olhos dos discípulos, Jesus “transfigurou-se”. O que acontece neste instante narrado pelo evangelista é a manifestação da glória escondida, transparecendo sua verdadeira essência. Jesus deixa visível para os discípulos mais íntimos sua natureza e glória divina.

Ele os chama à intimidade e nela permite que Pedro, Tiago e João os vejam glorioso ao lado dos grandes profetas do Antigo Testamento, Moisés e Elias. O pequeno número de seus seguidores neste relato mostra que Jesus se revela a quem Ele chama para perto de si. Assim, é na convivência com o Senhor que sua glória divina se manifesta aos nossos olhos e principalmente na vida de quem o segue.

A Transfiguração ocorre na intimidade daquela montanha, ali aquela manifestação é a antecipação da visão gloriosa do Cristo Ressuscitado, que haveria de se realizar após o calvário. Há um detalhe significativo na narrativa do Evangelho sobre este episódio. A transfiguração acontece diante de apenas três discípulos e num lugar retirado. Eles são levados por Jesus “a um lugar à parte, sobre uma montanha”.

Entendemos então esse “lugar” como o local da proximidade com Deus. Logo, este lugar para nós é a oração. Por ela, também nós podemos nos aproximar do Senhor, conhecer sua vontade e deixar que Ele fale ao nosso coração, revelando-se a nós.

O Papa emérito Bento XVI ensina, no livro Jesus de Nazaré (Ed. Planeta), que “ (…) a Transfiguração é um acontecimento da oração”. Segundo ele, “torna-se claro o que acontece no diálogo de Jesus com o Pai: a mais íntima penetração do seu ser com Deus, que se torna pura luz”. Também explica o Papa emérito que “na sua unidade com o Pai, o próprio Jesus é luz de luz” e “o que Ele é no seu mais intimo, (…), torna-se sensivelmente perceptível nesse momento” (p. 264).

Neste sentido, voltamos aqui a este importante tema da vida cristã, a oração. Mas especialmente, tratamos da oração íntima ou pessoal como costumamos chamar na RCC.

Parece-nos cada vez mais necessário exortar uns aos outros quanto a esta urgência. É preciso voltar a uma vida constante de oração, de permanência na presença do Senhor, de intimidade com Ele.

É na oração que Cristo se revela, mostra-nos o Pai e doa Seu Espírito Santo a nós. Sua glória divina é manifestada para que tenhamos força na caminhada, ardor apostólico na missão e, especialmente, nos mantenhamos em comunhão com Ele.

Este é um tempo oportuno. A quaresma incentiva a nos empenharmos na busca desta estreita relação de intimidade com Jesus. Através da vida de oração o Senhor quer manifestar sua glória sobre nós, revelando sua misericórdia e compaixão, seu apelo a conversão e a santidade, nos capacitando a darmos um sincero testemunho de vida cristã.

Marcos explica ainda a Transfiguração da seguinte forma: “ (…) Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” (Mc 9, 3). Esta explicação nos aproxima daquela imagem apresentada por João (um dos três presentes no relato) da visão de Jesus Cristo na sua majestade, narrada no livro do Apocalipse:

“ Vestido com uma túnica longa e cingido à altura do peito com um cinto de ouro. Os cabelos de sua cabeça eram brancos como lã branca, como neve; e seus olhos pareciam uma chama de fogo” (Ap 1, 13c-14).

Considerando as referências da descrição de João oriundas do Antigo Testamento, (especialmente Daniel 7, 13-14), é impossível não associá-la ao evento do Tabor, quando o apóstolo também contemplou o Senhor glorioso diante de si.

Outro detalhe é que a oração cristã não é o lugar para acomodar-se. É o ponto de partida para a missão. É a largada para a vida nova pessoal e nas relações com os irmãos. Não é a toa que Jesus não permite aquela acomodação sugerida por Pedro “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Mc 9, 5b).

Há aqui algo muito importante para nossos tempos. É a partir da intimidade da oração, da experiência pessoal que fazemos com o Senhor, numa vida de comunhão com Ele, que podermos revelá-lo ao mundo com o nosso testemunho e nossa missão

Santo Agostinho, inspirado nos padres espirituais, afirma: “Quem ora bem, vive bem!”. Neste sentido, se desejamos uma vida nova e plena na graça de Deus e assim sabermos lidar com as circunstâncias dos nossos tempos e de nossa sociedade atual é urgente voltarmos à vida de oração.

A Transfiguração nos mostra que na oração somos capazes de contemplar a manifestação da presença do Senhor no meio de nós. Ele quer revelar a nós sua divindade, nos permite participar de sua santidade. Devemos ir constantemente à presença do Senhor na oração, estar com Ele no Tabor para ver sua glória e testemunhá-la ao mundo.

Jefferson Souza

Grupo de Oração Ágape

Diocese de Macapá/AP

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Texto originalmente publicado no dia 28 de fevereiro de 2018 no Portal da RCC Brasil

Jefferson Souza

Jefferson Souza