Festival Eurovisão da Canção: Dinamarca lembra santo que procurou o diálogo e recusou a guerra

LISBOA – [snpcultura.org] – Não é de agora que o Festival Eurovisão da Canção se tenha tornado não só o mais importante concurso de música da Europa e um dos programas de televisão mais assistidos do mundo, com 200 milhões de espetadores, como também um meio de contar histórias ou lançar mensagens sociais.

A edição de 2018 – que começa hoje à noite, em Lisboa, com a primeira meia-final e a participação da canção portuguesa, prossegue na quinta-feira com a outra meia-final e termina no sábado, com a final – contará três narrativas muito fortes.

Os italianos Ermal Meta e Fabrizio Moro vão falar sobre terrorismo, com “Non mi avete fatto niente”. Da França vem o duo Madame Monsieur, que conta a bela história da pequena Mercy, filha de uma migrante nascida a 27 de março de 2017 num barco humanitário que navegava no canal da Sicília.

E na quinta-feira será a vez da Dinamarca, cuja música, interpretada por Jonas Flodager Rasmussen e intitulada “Higher ground”, inspira-se em S. Magnus Erlendsson, nobre norueguês convertido ao cristianismo, conde das Órcadas, conjunto de ilhas escocesas. A sua missão como governador do arquipélago, entre 1106 e 1115, foi caracterizada pela procura do diálogo e a recusa da guerra.

Por duas vezes refutou o combate: em 1098, durante uma incursão viking na ilha de Anglesey, durante a qual permaneceu num navio a recitar os salmos, e em 1115, quando foi morto na noite de Páscoa, em atitude de oração, por ordem do primo Haakon, com quem tinha negado lutar.

S. Magnus foi canonizado em 1898 pelo papa Leão XIII. O poeta George Mackay Brown (1921-1926) tornou-o mais conhecido na novela “Magnus”, enquanto que o compositor Peter Maxwell Davies escreveu uma obra sobre o seu martírio (“Hino a S. Magnus”).

O culto ao mártir S. Magnus está atualmente espalhado na Escócia, Islândia e Ilhas Faroé, onde numerosos milagres foram atribuídos, ao longo dos séculos, à sua intercessão.

A música de Rasmussen, de 32 anos, fala de diálogo para a resolução de conflitos: «A inspiração dos autores foi precisamente a história de Magnus», declarou o artista à página do festival. «E mesmo que o tempo seja diferente, a mensagem é sempre válida; para ele, recusar-se a atacar foi uma grande responsabilidade; hoje a sua história ensina-nos que é fundamental procurar o entendimento uns com os outros.»

«Não ser teimoso, não cruzar os braços, mas antes escutar as pessoas de braços abertos: quase sempre isso leva ao resultado que é a compreensão mútua.» A sua história também é contada pelas sagas da tradição do norte da Europa, com base nas quais os autores – uma equipa sueca composta por Niclas Arn e Karl Eurén – escreveram o texto.

Esta não é a primeira música com referências religiosas na história da Eurovisão. Embora o regulamento proíba citações explícitas relacionadas com a política ou confissões religiosas (o nome de S. Magnus nunca aparece no poema), por duas vezes venceram canções com claras referências à fé.

Trata-se de “Aleluia” (dos israelitas Gali Atari e Milk and Honey, em 1979) e “Hard rock Hallelujah”, dos finlandeses Lordi, em 2006, que debaixo de pesadas máscaras inspiradas em filmes de terror apresentaram um hino ao poder de Deus («Os anjos do rock trazem o Aleluia/ Na criação de Deus Altíssimo e sobrenatural/ Só quem crê verdadeiramente/ será salvo»). Em 2014, a Suíça levou ao palco os Takasa, banda composta por membros do Exército de Salvação, organização humanitária evangélica.

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