A Ortodoxia e o Concílio de Creta. Artigo de Alberto Melloni

alberto melloni 300x225O comentário é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha


Bolonha (Espanha) - IHU - O Concílio de Creta começou. Para as 14 Igrejas da Ortodoxia e não só para elas, o que até ontem era expectativa e luta pelo Concílio, a partir de hoje é um “fato”. O primeiro grande Concílio das Igrejas cristãs no século XXI está lá, no auditório da Academia Teológica de Creta, um semicírculo de cadeiras vermelhas, mesas brancas para os chefes das Igrejas, o Evangelho no meio de uma iconografia muito pouco sugestiva.

Não há o sabor da iconografia dos Concílios: mas há o fato do “Santo e Grande Sínodo” (esse é o seu título formal). O Papa de Roma – que tinha contribuído com o Concílio indo como peregrino, com o Patriarca e o Arcebispo Ieronimos, ao encontro do Cristo presente na dor dos refugiados de Lesbos – o reconheceu com um gesto primacial claro no Ângelus de domingo, definido o Concílio como algo que existe, em curso.

O Concílio foi precedido por tensões e surpresas, e outras virão nestes dias muito breves (1/34 do Vaticano II) de um Concílio em que o historiador não consegue ver nada, absolutamente nada, de incomum.

O Concílio poderia fracassar? É claro: porque é uma experiência de amor e pode se romper.

O Concílio se sustenta graças ao poder expressado pela sinaxe dos patriarcas que o convocou? Não, porque, parafraseando Torquemada, na sinaxe, há mais autoridade, mas, no Concílio, há mais graça.

O Concílio foi prejudicado pelas ausências russas, antioquenas, georgianas e búlgaras? Um pouco sim: mas não menos do que o Concílio de Éfeso, ao qual Antioquia não aderiu desde o início, e do que o Concílio Constantinopolitano de 1872, ao qual a Bulgária não foi.

O Concílio é menos pan-ortodoxo por causa da desistência russa? Poderia, mas a Rússia, que hoje corre o risco de ser excluída daquilo que quer participar e de desertar os compromissos aos quais é esperada, não pode deixar de notar que, temendo o excessivo protagonismo de Constantinopla, entregou ao Patriarca Ecumênico Bartolomeu o monopólio do universalismo ortodoxo.

Um Concílio que é importante porque é como os outros: aconteça o que acontecer. Será o seu desenvolvimento e a sua recepção que dirão se ele será como o de Niceia II de 787 que, embora contestado pelos carolíngios por ser presidido por uma mulher, derrotou o iconoclasmo; ou se será como o Lateranense V em 1512, convocado por Júlio II, que adiou pela enésima vez a reforma da Igreja: e, cinco anos depois, veio Lutero.

Como sempre, o Concílio de Creta, portanto, coloca um antes e um depois: para os 150 milhões de ortodoxos (e o milhão e meio de italianos que a tornam a segunda maior comunidade religiosa do país), para os cristãos e para todos. Ele foi aberto por um discurso lido com lentidão e emoção pelo Patriarca Ecumênico Bartolomeu, diante de cerca de 250 metropolitas, monges, monjas, homens de governo, observadores das Igrejas e convidados.

O patriarca disse que a sinodalidade não pertence ao funcionamento, mas à natureza da Igreja una e santa, expressa a sua vocação, cuida das suas deficiências. Nessa base, que deve muito ao pensamento de John Zizioulas, que talvez é o maior teólogo vivo, ele denunciou, em uma afirmação muito clara, como uma “afronta”, a desistência das quatro Igrejas que assinaram os (fracos) documentos preparatórios e renunciaram a presenciar o Concílio.

Mas também disse que esperava que os ausentes pudessem vir ou aderir a cumprir a “missão histórica” de unidade do Concílio, cuja verdadeira dimensão só vai aparecer na sua recepção ou na sua rejeição.

Depois do Patriarca, tomaram a palavra os outros Patriarcas e Arcebispos na ordem dos “dípticos”, as listas que recordam os chefes das Igrejas, das quais o Papa de Roma foi excluído em 1054: para denunciar o “veneno do egocentrismo”, como fez o Arcebispo de Creta, ou para mostrar confiança, como disse Irineu da Sérvia, no “Sol de Justiça que desfaz as nuvens” das ausências, sem confirmar a chegada do Patriarca da Bulgária no fim dos trabalhos.

E, depois, começaram os debates do Concílio, que retoma uma proximidade entre as Igrejas que, como todas, devem recuperar a confiança com a normalidade conciliar. Nessa terça-feira, discutiu-se um fraco documento sobre o mundo contemporâneo. Nesta quarta-feira, foi lido o documento sobre a Diáspora, que fixava regras para as cidades onde existem mais Igrejas e mais bispos ortodoxos (os EUA, mas também a Itália).

Procede-se, portanto, o regulamento adotado em janeiro, que requeria não a maioria dos presentes, mas a unanimidade das Igrejas representadas. Uma norma que mudou de significado depois da desistência de Antioquia, Geórgia, Rússia: porque a unanimidade do Concílio efetivamente reunido equivale a uma maioria qualificada. As Igrejas ausentes só poderão ficar na janela e esperar para dar, na qualidade de recepção do Concílio, uma adesão de baixo peso ou uma rejeição que será uma não notícia.

No fim, será votada a “mensagem”, que será o ato mais importante e conciliar do Concílio, cujo segundo esboço circula na comissão presidida por Emmanuel da França.

Em um canto do mundo que se assoma sobre o mar dos refugiados, pouco acima da pobre cidadezinha de Kolymbari, com os seus edifícios abusivos e inacabados, e os seus resorts proporcionais ao mau gosto dos clientes nórdicos, o Concílio Pan-ortodoxo, no qual o Fanar expressou a sua visão universal, em suma, “acontece”. Em uma sala sem solenidade, pouco além de Moni Gonia, onde os monges decoraram as sacadas com algumas das muitas bolas de canhão que o atingiram na sua história, a conciliaridade do século XXI viveu o seu primeiro dia.

Nada está decidido, nada está excluído, nada é como antes.

Tradução: Moisés Sbardelotto