Mídia e Religião

RADIO FONTE ETERNA LOGOMIDIATIZAÇÃO, MÍDIA-RELIGIÃO E CIBERRELIGIOSIDADE

A discursão da especialização jornalística no âmbito religioso está relacionada direta ou indiretamente com o processo de midiatização da sociedade, bem como, a relação mídia e religião. Pedro Gomes (2011) ao interpretar os processos de midiatização da sociedade afirma que este processo é lento e gradual. Seu desenvolvimento acontece a partir de dois eixos que, segundo ele, estão intercalados. Estes são:1°) o tempo que diz respeito a perspectiva de uma evolução cronológica; e a 2°) dimensão qualitativa que corresponde às relações humanas.

Gomes (2011) define que o processo de evolução da sociedade será a matriz que gera o processo de midiatização. Este processo permite a distinção das vias percorridas pela sociedade em suas relações: logosfera, grafosfera, midiosfera e a ciberesfera. Para o autor:

É a comunicação que constitui a sociedade, cujo conteúdo expressa toda a sua vida: passado, presente, futuro, histórias, sonhos etc. O resultado é o compartilhamento de vivências entre as pessoas de todas as gerações. O processo comunicacional possibilita o avanço progressivo da sociedade em níveis cada vez mais complexos. O relacionamento da mídia tanto com os processos de significação quanto com os processos sócio-culturais expressam a realidade e se dá no marco dos processos midiáticos. Esses dois movimentos, além disso, interagem para a construção do sentido social.

Hoje, com o advento da tecnologia digital, essas inter-relações se complexificaram e ampliaram, criando uma nova ambiência. (...) todos os inter-relacionamentos comunicacionais bem como os processos midiáticos ocorrem no caldo cultural da midiatização. (GOMES, 2011, p.24)

Isso significa, segundo o autor, que a sociedade em midiatização supera e engloba dinâmicas que modificam a realidade e as relações sociais. Os meios interferem e ou influenciam diretamente neste cenário interacional. Há, contudo, uma incompreensão deste processo por parte das igrejas cristas, por exemplo, que para o autor “ainda não despertaram suficientemente para o fenômeno da midiatização e sua incidência no modo como as pessoas articulam hoje a sua vivencia religiosa” (p. 93). O que significa uma falta de percepção do mundo midiático.

De tal modo, Gomes (2010) considera que o mundo midiático conforma a sociedade e por ela também é conformado, o que para o autor significa o surgimento de um “novo conceito de social e uma nova proposta de religião” (p.93). Os acontecimentos noticiosos das religiões com certeza apresentam a noção de dialogar com um público específico e possui potenciais resultados ou consequentes impactos.

Nas religiões esta “conformação” se expressa com o processo de midiatização pela qual muitas passam. A Midiatização da Religião ou a relação Mídia-Religião corresponde a uma realidade referente à constatação de como dialogam os Meios de Comunicação Social e as práticas de religiosidade. Por conseguinte, referência notória da presença religiosa com a utilização destes canais de comunicação.

Joana Puntel (2010) afirma que a midiatização da sociedade - e consequentemente de seus traços culturais, religiosos, etc - “ é, hoje, um elemento

central, porque o que carateriza a comunicação é uma preocupação com os fenômenos da interação humana, independentemente dos vários olhares, muito diferenciados, com que se pode examinar a mídia” (p.148). O que de fato vai refletir com visíveis impactos no cotidiano e nos interesses nas audiências e conclui que:

Estamos imersos no fluxo da comunicação midiatizada como se fosse “num aquário”. Ninguém é excluído do contato. Mudam os conceitos de tempo e espaço. Trata-se de uma revolução pervasiva, que pesa nos conteúdos do pensamento, sobre a experiência da vida cotidiana e sobre as próprias estruturas do indivíduo até o ponto de determinar uma nova compreensão da realidade. (PUNTEL, 2010, p. 153)

Convergindo na mesma direção que o pensamento de Puntel (2010), Rosa Pignatari (2009) constata em seu estudo sobre o tema que ao deter-se sobre relação Mídia-Religião e como se manifesta este processo de midiatização do campo religioso no país. Contudo, considerar tal realidade deste cenário, a autora afirma que isso “implica examinar algumas definições, imbricando esse quadro conceitual com as próprias mudanças no cenário dos processos midiáticos, somando as reconfigurações que o fenômeno religioso vem sofrendo no Brasil” (p. 153).

Os processos midiáticos e os fenômenos religiosos dados às transformações que os mesmos veem sofrendo quando encontram um ponto de intercessão realizam um no outro uma forte influência. A multiplicação, por exemplo, de perfis de instituições religiosas cristãs nas redes sociais é tão numerosa quanto o surgimento de novas denominações.

É como se o altar tivesse se transferido para a esfera comunicacional, no sentido da institucionalização e propagação da mensagem de fé nas mais variadas mídias. O campo midiático manifesta a fé ou a fé é manifestada pelo campo midiático? O fato é que novas formas de religiosidade estão sendo instauradas. As religiões se fariam muito mais “pela mediação das estratégias de produção de sentido midiático e dos seus efeitos e muito menos da permanência das formas elementares da vida religiosa, conforme descreveu Durkheim” (Neto, 2004, p. 177). O quadro reitera que uma das conseqüências do avanço e ápice da religião na contemporaneidade esteja em sua personificação através da comunicação e cultura midiática enquanto forte estrutura mediadora. (PIGNATIRI, 2009, p. 154)

Um dos motivos para alguns estudiosos que colaboram para a midiatização de expressões religiosas é a nova religiosidade desterritorializa, individualizada e fragmentada, elementos este presentes na cultura midiática. O ciberespaço, por exemplo, apresenta uma midiatização digital do fenômeno religioso, como constata Rafael Villasenor (2013).  A partir do neologismo Ciber-religiosidade o autor refere-se à presença do sagrado nas redes.

Ciber-religiosidade não deve ser encarada como o deslocamento de representações do sagrado previamente existentes para as redes, ou seja, manifestações religiosas que apenas passam por certas modificações para estarem presentes na internet. No entanto, a Ciber-religiosidade deve ser tomada como uma Sacralidade Digital nativa, ou seja, teve seu surgimento e é experimentada nas arquiteturas informativas digitais. A religião está sendo reformulada e reconstruída coletivamente pelos indivíduos que participam das manifestações da religião digital. A ciber-religiosidade no mundo virtual funciona como espaço de culto digital, que apresentam os próprios sistemas de crenças, as próprias explicações a respeito do funcionamento do universo e seus receituários éticos para os possíveis fiéis. (VILLASENOR, 2013, p.99)

Villasenor (2013) apresenta em seu estudo três formas da presença das religiões na web. São elas: páginas institucionais, geralmente informativas (notícias, eventos, etc); páginas comerciais (para comercialização de produtos e artigos religiosos) e a ajuda, dita, espiritual.

Segundo o autor, estas categorias evidenciam a forte presença e as variedades que são permitidas na rede e conclui relacionando isso com “ o aumento da inserção das religiões e de suas respectivas práticas no ciberespaço” (p. 104), de maneira que “amplia cada vez mais as opções e os modos de manifestar as próprias crenças e práticas religiosas online” (p. 104).

No aspecto do jornalismo esta presença das religiões na web também provoca mudanças ou exerce forte influência. A pesquisa de Priscila Sousa (2013) afirma que “em uma sociedade em midiatização, vários setores da vida cotidiana são afetados, dentre eles o jornalismo que começa a mudar de maneira rápida e bastante notória por todos” (p.49).

Para a autora, a prática jornalística está adquirindo cada vez mais visibilidade através dos suportes e processos de midiatização, de maneira simultânea as práticas religiosas. Este forte processo vai se realizando e influenciando a produção de notícias da mesma forma que as interações sociais e culturais.

JORNALISMO RELIGIOSO: COBERTURA ESPECIALIZADA EM RELIGIÃO

A partir da reflexão de Jornalismo Especializado e Midiatização da Religião, é possível afirmar que este tipo de cobertura, e neste caso, este Projeto Experimental, propõe-se a um olhar interpretativo sobre a religião, com informações que considerem seus impactos e sua influencia na sociedade.

A propósito da relação com tema religião, Karla Patriota (2004) vai destacar pesquisa que apresenta o crescimento de “indivíduos religiosos” e, no caso dos cristãos no Brasil, estes superam a população de muitos países europeus, como Bélgica, Dinamarca e Finlândia, por exemplo. Sua pesquisa constata que:

Percebe-se então, que no momento em que parecia propensa a um esfacelamento, ou no mínimo, a um grande enfraquecimento, a religiosidade ressurge com ares renovados. Numa multiplicidade de novas formas e expressões, a religião se rearticula nos moldes da modernidade, estabelecendo uma cumplicidade com os tempos de crise e apresentando-se como disponível para auxílio na solução dos problemas humanos.

Esta rearticulação do campo religioso brasileiro, ocorrida em um curtíssimo espaço de tempo, após o auge da liderança hegemônica católica romana, vem

apresentando profundas e significativas mudanças no contexto social e tem atraído a atenção de estudiosos da sociologia da religião e da mídia, tão somente porque o surgimento das novas formas de religiosidade tem demonstrado um imbricamento com os meios de comunicação de massa. (PATRIOTA, 2004, p. 02)

Considerando os conceitos apresentados até aqui é possível destacar a necessidade que se apresenta de uma cobertura jornalística equivalente a este processo de midiatização das religiões. Portanto, na perspectiva de Tavares (2012), Abiahy (2000), Patriota (2004) e na concepção deste Projeto Experimental, o que daria uma resposta adequada às expectativas deste público seria um jornalismo especializado em temas religiosos.

Sendo assim, uma terminologia ainda a ser definida, podendo ser denominada de jornalismo religioso ou jornalismo especializado na cobertura religiosa e que deixa claro o objetivo desta especialização. Esta especialidade jornalística pode inclusive contribuir para aperfeiçoar a produção jornalística no ambiente confessional ou mesmo na dita secular, quando a pauta corresponder aos temas, os eventos, acontecimentos ligados às confissões religiosas ou costumes.

Não se trata unicamente de uma cobertura confessional, produzidos por veículos de comunicação ligados a uma instituição, ou mesmo da cobertura de acontecimentos no universo da religiosidade. Corresponde a uma interpretação deste processo pelo qual passam as instituições religiosas com presença na mídia.

Diante desta perspectiva, retoma-se com mais clareza a proposta de um jornalismo especializado. Tomando como ponto de partida Helton Vilar (2012) ao considerar que o interesse de uma cobertura imparcial condiciona os veículos a manterem-se em uma distância estratégica das igrejas. Para ele esta atitude privilegia a utilidade das notícias e seu contexto político.

Por exemplo, a cobertura da visita do Papa ao Brasil tem sua relevância e exige a cobertura por meio dos veículos de comunicação. Contudo, a falta de cobertura da rotina do Pontífice Romano no Vaticano pelos mesmos veículos, segundo esta postura de distanciamento, não permite que a figura política e o papel influente que o Papa exerce não tenham a visibilidade necessária o que pode distanciar o público de informações de seu interesse ou que promovam na sociedade os debates necessários.

Vilar (2012) afirma que “o jornalismo secular é aquele que, sobretudo, alguém que não denúncia a coisa mística, apenas o descreve à distância, baseado em evidências concretas e entrevistas” (p. 08). Contudo, adverte:

Apesar disso, mesmo que a intenção seja de se manter distante, a imprensa secular pode – e talvez isso fatalmente acontecerá – se deixar seduzir por uma moral religiosa na interpretação dos eventos e nas suas posições, adotando, neste caso, a religião como notícia, dentro de um tom crítico e uma linguagem polida (VILAR, 2012, p. 09).

O alerta do autor é importante e corresponde ao perigo da instrumentalização do jornalismo em detrimento da informação. Assim, a cobertura religiosa não pode deixar-se esvaziar em “linguagem polida” dos acontecimentos, mas dando a ênfase e o enfoque necessários para favorecer a produção jornalística.

Villar (2012) enumera alguns pontos relevantes a respeito do processo de escolha das notícias neste universo. São eles: Ser um assunto nacional e que tenha apelo na grande imprensa, ter algum tipo de impacto direto nas polêmicas dogmáticas e doutrinais (aborto, homossexualidade, celibato, etc) e algum tipo de ligação direta com alguma igreja ou personalidade, mesmo que não tenha sido ainda repercutido.

Na perspectiva de um jornalismo especializado na cobertura religiosa, tratando do que ele mesmo chama de jornalismo gospel (cobertura realizada no cenário cristão evangélico), Vilar (2012) aponta a cobertura realizada por sites ligados às igrejas cristãs evangélicas e afirma que esta especificidade de produção jornalística identifica alguns elementos significativos: a semântica religiosa; diferentes expedientes da informação; cobertura dos fatos do dia (universo religioso); recursos gráficos, imagem e humor; por fim, a dicotomia “inimigos de fé, colegas de profissão”, que se refere a correspondentes interessados na cobertura das práticas religiosas.