Jornalismo Especializado

jornalismo-especializado-modelo-1JORNALISMO ESPECIALIZADO E ESPECIALIZAÇÃO JORNALÍSTICA

O jornalismo especializado é uma temática que emerge nas décadas de 1970 e 1980 e aos pouco vai se tornando um campo produtivo em discussões acadêmicas e terá na Espanha os principais autores dedicados em iniciar uma reflexão a respeito da proposta. Segundo Frederico Tavares (2012) os autores Pedro Orive e Concha Fagoaga, já na década de 1970, afirmavam “que caberia à especialização jornalística diagnosticar os problemas da sociedade atual segundo certa área de interesse” (p. 98). O objetivo desta proposição de prática jornalística teria como objeto a discursão de possíveis soluções para conflitos de entendimento de temas e para formar nos leitores dos periódicos uma consciência crítica frente à realidade, além da simples função de informar sem os fatos.

Fazendo um paralelo, também é visível uma crescente notoriedade que pequenos grupos de expressão religiosa adquirem nos meios de comunicação na década de 1990, abrindo caminho para uma necessidade de reflexão a respeito destes grupos, a forma como lidam com a comunicação e, principalmente, as necessidades desta demanda frente à especificidade de sua religiosidade. No âmbito do jornalismo permite-se, assim, a ótica da cobertura religiosa, um jornalismo especializado na cobertura religiosa. Sobre o jornalismo especializado os debates perpassam tentativas de definições desde o entendimento a respeito de uma cobertura que se trata de uma especialidade através dos meios (telejornalismo, rádiojornalismo, impresso e webjornalismo) ou que trata de abordagem relacionada à temas (jornalismo econômico, científico, ambiental, cultural, etc).

O estudo de Ana Abiahy (2000) considera que o interesse do público é quem determina, a partir dos interesses individuais, o enfoque da cobertura, o que justificaria o atendimento através de especificidades, informações ou mesmo lógica de mercado. A autora destaca que:

O desenvolvimento do jornalismo especializado está relacionado a essa lógica econômica que busca a segmentação do mercado2 como uma estratégia de atingir os grupos que se encontram tão dissociados entre si.Muito além de ser uma ferramenta mais eficaz de lucro para os conglomerados midiáticos, o jornalismo especializado é uma resposta a essa demanda por informações direcionadas que caracteriza a formação das audiências específicas. (ABIAHY, 2000, 05)

Como resposta a esta audiência específica, segundo a autora, o jornalismo especializado traduz e/ou interpreta as fontes e notícias numa perspectiva centralizada na mensagem e nos posicionamentos, com especial atenção aos impactos vindouros de sua veiculação.  Abiahy (2000) conclui que é possível “considerar que as produções segmentadas são uma resposta para determinados grupos que buscavam, anteriormente, uma linguagem e/ou uma temática apropriada ao seu interesse e/ou contexto” (p.06).

Tavares (2009) constata em seus estudos que “historicamente, a especialização periodística está associada, em sua maioria, à evolução dos meios de comunicação e a formação de grupos sociais consumidores de mídia cada vez mais distintos” (p. 117). Assim, esta especialização da atuação jornalística que dialoga diretamente com os canais e grupos é fruto da diversidade da audiência, concordando com Abiahy (2000). Um público diversificado exige do jornalismo uma cobertura mais ampla em termos de meios, temas, aprofundamentos e debates.

Neste cenário temos como protagonista a imprensa e as consequências deste processo tecnológico e social sobre ela. Do ponto de vista dos conteúdos, dada a sua vocação de falar do mundo como um “todo”, buscando dar conta desse “todo”, a imprensa, como primeiro grande meio de comunicação jornalístico, sempre esteve fragmentada, falando “genericamente de coisas específicas”. Sua especialidade, pela palavra autorizada e pela fragmentação dos conteúdos, sempre existiu. No entanto, com a introdução de outros meios e, consequentemente de outros regimes de produção (de noticiabilidade, visibilidade e periodicidade), tal especialidade passou a bater de frente com a lógica da especialização, ou seja, de uma outra especialidade jornalística (TAVARES, 2009, p. 117 – 118).

O autor ao referir-se a esta especialização dentro do jornalismo diário demonstra o pensamento de que o olhar predominante está nos conteúdos e não nos métodos de trabalho, apesar destes exigirem do jornalista habilidades especificas próprias dos meios. Para Tavares (2009), isso indica indiretamente questões de consumo, de métodos e de linguagem. Uma de suas conclusões constata que:

Atribui-se a esse tipo de jornalismo, portanto, o papel de buscar intermediar saberes especializados na sociedade, construindo um tipo de discurso que, noticioso, ou “apenas” informacional, promova um outro tipo de conhecimento que se funde – geralmente – na compreensão conjunta do universo científico e do senso comum. (TAVARES, 2009, p. 123)

Tavares (2012) insiste que “(...) a especialização jornalística ou o jornalismo especializado, consideradas suas diferenças e aproximações terminológicas, são perspectivadas segundo sua relação intrínseca com um jogo histórico de tensionamento entre os campos sociais e a prática jornalística” (p. 99). Estes campos sociais dialogam com a prática jornalística, seja interferindo diretamente no que se tem produzido nas redações, seja como fonte de notícias, seja como audiência.

O estudo do autor ainda vai destacar que no “jornalismo especializado, pode-se dizer, propõe-se sempre uma junção, independentemente do meio e do conteúdo, entre a necessidade de um processo de leitura distinto sobre o mundo e a adequação de termos e lógicas a uma linguagem acessível como parâmetros para se pensar essa prática jornalística” (p.107), o que corresponde, segundo ele, a uma nova metodologia de trabalho, cujos fundamentos são novos produtos. A necessidade básica do Jornalismo, segundo ele, permanece sendo o de “intermediar tematicamente saberes expertos de uma maneira acessível ao público, buscando não apenas transmiti-los, mas também explicá-los” (p. 108).

Tavares (2012) afirma que no “jornalismo especializado, pode-se dizer, propõe-se sempre uma junção, independentemente do meio e do conteúdo, entre a necessidade de um processo de leitura distinto sobre o mundo e a adequação de termos e lógicas a uma linguagem acessível como parâmetros para se pensar essa prática jornalística”(p.107).

Desta forma, este processo de leitura distinto apresentado pelo autor, neste Projeto Experimental, corresponde à proposta da cobertura especializada com a adequação necessária para os ambientes que a prática jornalística vai apresentar-se, seja secular, seja confessional, mas buscando deter-se no sempre no viés da práxis do jornalismo.