A falácia da gentileza

“Eu não me importo se você é negro, branco, hétero, bissexual, gay, lésbica, baixo, alto, gordo, magro, rico ou pobre. Se você for gentil comigo, eu serei gentil com você.” (Eminem)

“Gentileza gera gentileza.” (José Datrino, o Profeta Gentileza)

Só eu não concordo com as frases acima? Ser gentil com quem é gentil contigo não deveria ser mérito pessoal algum. Aliás, é fácil, ordinário, sem necessidade de esforço. É o básico, o toma-lá-dá-cá, o olho por olho, aquilo que o instinto reage automaticamente, sem pensar, sem sentir.

E ainda abriria a porta para que o oposto também fosse validado: se você não for gentil comigo, não preciso ser com você; ou grosseria gera grosseria (o antônimo de gentileza), que poderia evoluir para o famoso violência gera violência.

Mas, eu quero mesmo ver é você ser capaz de ser gentil com quem não é, fazer a não gentileza gerar gentileza. Pensar que, se o outro não lhe tratar gentilmente, o problema está inteiramente nele, mas se você não o tratar com gentileza, aí sim, o problema está em você. Ousar vestir a filosofia de Gandhi, de Jesus, de Buda, dos estoicos.

Lembrei de algo da época que eu lia o velho livro: “Se vocês amam somente aqueles que os amam, por que esperam que Deus lhes dê alguma recompensa? Se vocês falam somente com os seus amigos, o que é que estão fazendo de mais?” (Mateus 5:46-47, NTLH)

Frustrações de um Leitor Voraz

sadNão desejo soar pretensioso demonstrando um problema que poderia ser tratado facilmente como irrelevante comparado aos que a falta de leitura traz. Ou de soar como um coxinha classe média-alta reclamando de barriga cheia. Penso que já existem centenas de textos tratando devidamente de outros problemas relacionados à falta de leitura, acesso à livros e incentivos públicos. Também não quero estereotipar matematicamente quem seria o tal leitor voraz ou afirmar que todos os leitores vorazes teriam os mesmos problemas. Quem é leitor voraz sabe se auto definir. E quem é leitor voraz, assim espero, ou terá passado por pelo menos um dos problemas que citarei ou vai me compreender.

Aquele que lê muito inevitavelmente uma hora percebe que não é mais qualquer livro que o satisfaz. O seu nível de exigência qualitativa aumentou. Somente drogas mais pesadas surtirão efeito. Isso acontece, basicamente, porque as tramas, fórmulas e narrativas literárias se repetem muito mais do que a maioria imagina. Mudam-se títulos, autores, capas e anos de publicação, mas é mesma história contada de um jeito diferente. E, se o leitor voraz conhece as melhores narrativas daquela história, mesmo encontrando uma nova que seja razoavelmente boa, não será tão afetado quanto os demais leitores que desconhecem as demais. Assim, seja lendo clássicos ou contemporâneos, contos ou romances, chineses ou mexicanos, a capacidade de se surpreender com um livro diminuirá sensivelmente. Calculo hoje a minha média em dez para um. Dez livros lidos para encontrar o que vai desferir um tapa, chacoalhar a cabeça, chocar e trazer a sensação de felicidade, tristeza, raiva, nojo ou qualquer outra que valha a pena sentir através da leitura. Justamente por isso que o leitor voraz não diminui o ritmo de leitura, mas muitas vezes aumenta. Ele pensa que se a proporção se manter em dez para um quando ele ler um livro por ano, levaria dez anos para encontrar o seu graal das letras. Pelo contrário, se ler dez livros todos os meses aumentaria a estatística para receber doze bênçãos sobre si num único ano.

Este efeito também faz com que o leitor voraz se perca nas escolhas das próximas leituras. Mesmo sendo o metódico que estipula metas e listas ou sendo o que pega a esmo o primeiro que grita aos olhos quando passeia pela estante, chegará o momento do vazio literário. Não a ressaca literária a que tantos se referem causada após uma leitura excepcional. Mas o vácuo em que, mesmo com as melhores opções disponíveis na sua frente, faz com que o leitor não consiga decidir qual livro vai levar para a cama naquela noite. Escolher um é rejeitar os demais. Quem garantiria que um daqueles rejeitados não era o melhor na lista dos dez últimos lidos? O leitor voraz não tem problemas em ter milhares de livros disponíveis, seja em sua biblioteca com mais títulos dos que ele lerá em sua vida, seja em bibliotecas públicas ou livrarias que permitem a leitura dos mostruários, seja nos downloads de ebooks gratuitos ou pagos, pirateados ou legalizados. Porém, a diversidade de amores frustra encontrar o amor verdadeiro.

Por conseguinte, há o isolamento do leitor voraz. Ele não tem com quem conversar, debater ou até mencionar os livros que lê, mesmo dentre o conjunto restrito de leitores. Em tempos virtuais, ele pode criar um blogue ou participar de fóruns literários, mas raras vezes alguém lerá o livro ao mesmo tempo que ele. Os leitores vorazes costumam ser animais solitários de relógios bibliográficos mais solitários ainda. E, se em alguns meses ou anos, alguém ler aquele livro que o leitor buscava um cúmplice, a maldição se reverte e é o leitor voraz que, depois de tantas novas leituras, terá mudado e não se interessará tanto em livros deixados em outros portos. Desta forma, o leitor voraz ou deverá contentar-se em ser caçador solo ou em interagir com suas necessidades passadas.

Talvez alguém argumente que seria fácil a solução ao leitor voraz. Deixando de sê-lo. Contudo, se o obeso sabe que deve diminuir a gula, o alcoólatra não tomar o primeiro gole, e tantos outros viciados que reconhecem que tem um problema, o leitor voraz perde um pouco de sua essência se diminui o ritmo. Ou melhor, o seu universo perde a essência, pois ao invés de viver em um multiverso teria de se acostumar a viver em um único universo. E, essa involução não é engolida por todos os tipos de pessoas, especialmente pelos leitores vorazes.

Escritores Sem Fronteiras

O escritor é o ser livre mais humano que existe. Para ele pouco importa a localização física, familiar ou financeira. Ele mesmo constrói a sua geografia, os seus amigos, amores e riqueza. Escritor é escritor não importa se está preso ou se vive na dinastia Ming. Mas é incompreendido pelos que não sofrem dos mesmos males que ele. Muitos, ou todos ao seu redor, não entenderão quando o virem exausto e cambaleante depois de uma árdua batalha com as muitas faces de si que resolveu criar misturando as coisas mais inesperadas como um sótão e um raio catalizador. Tampouco compreenderão a sua negativa em se aposentar de vez no próximo livro. Pois, apesar do seu corpo parecer definhar o seu espírito incendeia.

O escritor é cara mais narcisista e generoso que existe. Nega precisar de leitores, mas é fonte de alegrias e tristezas em multidões quando chega ao ponto final. Não se importa que não o leiam, pois ele mesmo é o seu primeiro e maior leitor, assim com o mais violento crítico. Ele escreve para suprir a sua dose de heroína diária, de chicotadas, de orações. E ainda é doador de alma tipo O positivo. Exijam toda a sua vitalidade e ele a dará. Sacrificará a vida pelas letras. Deixará como herança ecoando pelas eras o som das penas arranhando o papiro, do grafite sujando o Moleskine, dos toques na máquina de escrever pela madrugada afora ou das batidas frenéticas nas teclas do computador que não devolve o último manuscrito, pois o quer ler sozinho.

O escritor é uma criança que brinca de Deus. Depois cansa e passa para mocinho e bandido, cobra-cega e adedonha. Para ele, o que importa é imaginar. Criar mundos cheios de monstros, fazer o mocinho subir na torre enquanto a donzela foge com o ogro, vencer guerras onde um sozinho encara e vence zilhões e gente que vive se apaixonando pela pessoa errada. O escritor rejuvenesce e se eterniza a cada linha escrita. A vida pulula dentro dele. Os seus olhos são portais que, quando olhados bem de perto revelam outra dimensão: a que só ele vê mas quer convencer aos outros que existe de verdade. Qual dimensão é a real ele não sabe, mas passeia por ambas. Por isso, se um escritor sumir por algumas horas, pode saber que ele não está neste Universo.

O escritor é o filósofo das diferenças. Quando fala algo não emite uma opinião própria. Mostra tudo o que já foi dito e o que ainda não disseram. Mas se escreve “eu quero voar” é ambíguo, deixa o leitor decidir se o “eu” é o escritor, o narrador, a personagem, o contexto ou se é uma fala do próprio leitor prevista pelo escritor.

O escritor, antes de tudo, vive mais, mesmo que morra jovem. Não vive um pouquinho de cada vez, vive tudo e um pouco mais sempre que ilumina palavras no horizonte escuro. Deixa um rastro para os bebês que ainda engatinham, mas que já se maravilham pensando o que será o tal do be-a-bá. Por isso, pouco importa a vida física do escritor. O que importa é o seu legado. Quantos Kafkas desconhecidos não terão enterrado tesouros com eles na morte por não terem um amigo infiel a quem confiar? Quantas epopéias escritas em papiro, couro, madeira, pedra, papel e que tal qual poemas escritos na areia não foram levados pelas ondas do tempo? Quantos não tiveram sótãos para se esconder enquanto eram perseguidos e dizimados? Quantos não terão computador nem internet para ler uma simples e boba homenagem ao Dia do Escritor?

 

Homenagem escrita em 25.07.2008 à todos os blogueiros escritores – amadores como eu ou não – que costumo acompanhar e que suportam as minhas besteiras vez por outra. São: Lendo.org, Mundo de K, A Fênix Apoplética, Sem Meias Palavras, Contos no Papel, Arredor de Mim, Máquina de Letras e Liberal Libertário Libertino. Me perdoem os que esqueci, mas este ano a quota foi esta. 1 abraço. JLM.

 

Pós Dia do Amigo

Ontem foi o Dia do Amigo. Isso mudou muito a minha vida. Bah, é mentira. Eu poderia ter escrito esse texto ontem – até economizaria um pós no título – mas sou sempre do contra quando todos resolvem ir em uma direção sem pensar porque vão para lá. Talvez, se ninguém estivesse falando do Dia do Amigo e se não fosse mais um modismo empurrado pela mídia eu teria escrito esse texto ontem. Talvez eu escrevesse sobre o Dia do Amigo no Dia do Amigo. Mas não.

Amigo do peito. Amigo de fé. Amigo imaginário. Mui amigo. Amigo da onça. Amigos para sempre. Amizade colorida. Tudo isso é sobre o que não vou falar aqui. Nem vou falar do argentino que teve a ideia de criar o dia do amigo no mesmo dia em que o homem pisou na lua porque, segundo ele, abriu-se a oportunidade de se fazer amigos em outras partes do Universo. Rá. Argentino idiota. Ele só esqueceu de mencionar quem eram os amigos dele e perdeu a chance de eternizá-los. Tirando os lunáticos e os fãs nostálgicos do filme ET, particularmente não conheço ninguém desde 1969 que tenha feito sequer um amigo alienígena. Pelo contrário, muitos perderam amigos depois que algumas naves, literalmente, foram para o espaço. E não consigo me imaginar sendo amigo de um ser interplanetário, chamando um marciano pra um churrasco aqui em casa. Preconceito? Não, questão de gosto estético mesmo. Mas se aparecesse alguma alien igualzinha a Jessica Alba na minha frente eu iria ser bem mais que amigo, no mínimo uma amizade bem profunda.

Meus amigos não são estes “estereotipinhos” que aparecerem no Dia do Amigo. Não são aliens ou manequins de vitrine. Eles não precisam de um dia específico para que eu me lembre deles. Aliás, desculpinha sem-vergonha essa de criar um dia só, para se lembrar de alguém, não? Feliz Aniversário, fulano, muitos anos de vida. Isso depois de um ano sem trocar duas palavras com o fulano e levando um presentinho ordinário que ele depois não vai saber onde enfiar, já que quem deu o presente foi embora logo após comer três pedaços de bolo e deixar toda a louça pra lavar. Feliz Dia dos Namorados, meu amor. E o presente vem sempre acompanhado de algo a mais por trás. Estou falando de intenções, seu malicioso. Pode prestar atenção: ou se dá o presente no Dia dos Namorados esperando ganhar outro, do mesmo valor, é claro, ou se dá o presente querendo apimentar um pouco mais a relação naquele dia. Avançar pelo menos uma base, como dizem os norte-americanos. Não que eu considere totalmente ruim, mas esperar um ano inteiro pra isso é falta de espontaneidade e atitude. Depois não sabem porque o Ricardão chegou antes e fez tudo o que você esperou tanto para sugerir. E sem dar presente algum. Feliz Natal! Época de nos reunirmos com a família e refletirmos sobre o nascimento do salvador da humanidade e a paz entre os homens. Paz para quem, cara-pálida? O que geralmente acontece é um campeonato para ver quem come mais, bebe mais, fofoca mais, mente mais e atura mais aquele tio bêbado torrando a paciência pedindo dinheiro emprestado para a sua última ideia de negócio milionário. Demais, não? Feliz Páscoa! Feliz Ano Novo! Feliz Hanuká! Feliz dia de Finados! Bah.

Meus amigos não estão vinculados a datas. Aparecem algumas vezes nas horas certas, mas sempre nas erradas. Amigo que não empata pelo menos uma foda não é amigo. São os que riem comigo, de mim e quando rio deles. Amigo bebe a marca de cerveja barata que você comprou, mesmo sabendo que vai ter uma ressaca desgraçada no dia seguinte. É o amigo que te apresenta a amiga feia da garota bonita com quem ele tá saindo, só pra você fazer a mesma coisa na próxima vez. Afinal, amigo que é amigo te sacaneia e é sacaneado por você. Peida no elevador quando só estão vocês dois. Vomita no seu carro e dá em cima da sua prima. Mas te socorre quando você sofre um acidente, te consola quando você leva um pé na bunda ou quando o teu time cai para a segunda divisão. Não sem tirar uma onda, é claro. Mas a onda de amigo sempre acaba virando a sua onda.

Você não sente saudades de amigo. Isso porque se ele não estiver onipresente na sua vida deixou de ser amigo. Virou passado, fotografia, lembrança para ser contada aos amigos atuais. Você não tem inveja do sucesso do amigo. Mas sempre vai querer que ele faça um precinho especial pra você, seja qual for a profissão dele. É dentista? Vai ter que arrancar dois dentes pelo preço de um. É advogado? Além de ganhar a causa, obrigatoriamente, tem de cobrar metade dos honorários e descolar o telefone da estagiária. É garoto de programa? Bem, aí a gente aceita tomar um chope mesmo, afinal não dá pra misturar negócios e amizade sempre, não é?

E o mais importante, o essencial: o amigo é um espelho que mostra como você é. Você tem os amigos que merece. Se os teus amigos vivem pedindo dinheiro ou a furadeira elétrica emprestados e nunca devolvem, é porque você é o único que tem a capacidade de emprestar para eles sem cobrar depois e ainda continuar sendo amigo. Se tem amigos chatos, ignorantes, boêmios, namoradores, fãs de telenovelas ou de livros de vampiros, enfim, se tem como amigo aquele que ninguém mais aguenta, é porque o papel da vida dele foi escrito exclusivamente para trazer emoção à sua vida, para fazer você viver o que nunca viveria sem ele. Mas se você não tem nenhum amigo, não se desespere, não é porque você não merece um. É porque o seu amigo ainda não está pronto, deve estar cozinhando por aí até ficar no ponto ideal de ser seu amigo. De um jeito que só você e ele serão capazes de definir, curtir e valorizar, como bons e únicos amigos que serão.

Guardas! Guardas!, de Terry Pratchett

guardas-guardsa

Uma boa livraria não passa de um Buraco Negro civilizado que sabe ler. (pg. 13)

A razão pela qual os clichês se tornam clichês é que eles são os martelos e as chaves de fenda na caixa de ferramentas da comunicação. (pg. 147)

Você considera a vida um problema porque você pensa que existem as pessoas boas e as pessoas más. Você está errado, é claro. Existem, as pessoas más, mas algumas delas estão em lado opostos. […] Lá embaixo – continuou – há pessoas que seguirão qualquer dragão, adorarão qualquer deus, ignorarão qualquer iniquidade. Tudo por causa de uma espécie de tédio, deficiência cotidiana. Não a verdadeira repugnância criativa dos grandes pecadores, mas uma espécie de escuridão da alma produzida em massa. Um pecado, pode-se dizer, sem nenhum sinal de originalidade. Eles aceitam o mal. Não porque dizem sim, mas porque não dizem não. Desculpe-me, mas vocês precisam de nós. Nós somos os únicos que sabem fazer as coisas funcionar. Sabe, a única coisa que as pessoas boas sabem fazer bem é combater as pessoas más. e você é bom nisso, sou obrigado a admitir. Mas o problema é que isso é a única coisa que você faz bem. Um dia tocam-se os sinos e derruba-se o tirano cruel, e no dia seguinte todos estão reclamando porque, desde que o tirano foi derrubado, ninguém mais recolhe o lixo. Porque as pessoas más sabem planejar. Faz parte da definição, pode-se dizer. Todo tirano do mal possui um plano para dominar o mundo. As pessoas boas parecem não levar jeito. (pg. 323-324)

Odisséia, de Homero

Poucos são os filhos semelhantes aos pais:
a maior parte são piores; só raros são melhores. (Canto II, pg. 143)

Algumas coisas serás tu a pensar na tua mente;
outras coisas um deus lá porá: na verdade não julgo
que foi à revelia dos deuses que nasceste e foste criado. (Canto III, pg. 150)

A morte que chega a todos nem os deuses podem afastar
de um homem que lhes é amado, quando o abate
o destino deletério da morte duradoura. (Canto III, pg. 157)

É a lei que está estabelecida para os mortais, quando morrem.
Pois os músculos já não seguram a carne e os ossos,
mas vence-os a força dominadora do fogo ardente,
quando a vida abandona os brancos ossos
e a alma, como um sonho, batendo as asas se evola. (Canto XI, pg. 304)

Procurando a Luz das Palavras